quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Beleza natural não basta

Vítima da falta de planejamento ao longo de anos, e enfrentando problemas estruturais, o Espírito Santo ainda atrai poucos turistas

20/11/2011 - 22h39 - Atualizado em 20/11/2011 - 22h39
A Gazeta


foto: Daniela Zanotti
Obras em Praias - Castanheiras

No Centro de Guarapari, o impacto visual da expansão imobiliária à beira-mar é visível

Claudia feliz

cfeliz@redegazeta.com.br

Você certamente já deve estar cansado de ouvir dizer que o Espírito Santo é um Estado com muita beleza natural, onde é possível ir da praia à montanha rapidamente - algo em torno de 40 minutos, já pensou que delícia? -; com uma culinária saborosíssima - nossa moqueca é mesmo imbatível!. Sem falar na sua posição estratégica, bem próxima dos grandes centros do país. Então por que será que nosso turismo de lazer é tão inexpressivo?
Há anos, é sempre a mesma coisa. Às vésperas da temporada de verão, hotéis, bares, restaurantes, e o comércio em geral, começam a contagem regressiva para a chegada dos turistas. Pena que, segundo admite o próprio presidente do Espírito Santo Convention & Visitors Bureau, Maely Coelho, há ainda, em terras capixabas, quem explore o turista, e não o turismo...

Não dá para negar que, do ponto de vista do turismo de negócios, nossa posição é mais confortável. Mais de 600 eventos nacionais e internacionais foram realizados nos últimos 12 anos de existência do Convention Bureau, basicamente, em Vitória. Na Capital, de segunda à sexta-feira, técnicos e executivos de empresas de fora, que para aqui migram em função dos seus negócios, garantem uma boa ocupação hoteleira.

Mas poderíamos ter um registro bem maior, se não padecêssemos de um, entre muitos males turísticos: não temos um centro de convenções capaz de abrigar grandes eventos. E a lista de "defeitos" não para por aí. A estrutura do nosso aeroporto, mesmo com o "puxadinho", parece piada de mau gosto. Grandes aeronaves não cabem no seu pátio.
foto: Divulgação/Iema
Obras em Praias - Castanheiras
A beleza da Pedra Azul, um dos símbolos da região de montanha capixaba
Projetos
Secretário de Estado do Turismo, Antônio Alexandre Passos, fala com otimismo dos projetos executivos para construção de um verdadeiro centro de convenções, no cruzamento das avenidas Dante Micheline e Adalberto Simão Nader - esse, parceria do governo do Estado com a prefeitura da Capital - e para a construção de um terminal de passageiros de cruzeiros marítimos na Praça do Papa, orçado em R$ 60 milhões. O aeroporto? Bem, a solução para essa "novela" está nas mãos do governo federal, mas Passos faz questão de ressaltar o empenho do estadual nessa história.
Otimista, diz que o Espírito Santo "é a bola da vez do turismo", apostando no resultado do trabalho que vem sendo articulado pela secretaria exclusiva do setor, com apenas três anos de existência - sintomático, não? - que ele dirige.

O secretário diz que está em processo a contratação de uma empresa para desenvolver o marketing do turismo do Espírito Santo, dentro de uma estratégia nacional. Ele cita a veiculação de anúncios publicitários sobre o Espírito Santo em publicações especializadas e de grande porte, reuniões com grandes operadoras, e até uma estratégia recentemente adotada: a oferta de um carro popular (motor 1.0) para o agente de viagens que vender mais pacotes para o Espírito Santo. "Turismo virou prioridade do governo, é um dos dez eixos de desenvolvimento do Estado", garante.

Críticas
Tem muita gente torcendo para que essa promessa realmente vingue. Gente como o consultor e professor especializado em Turismo, Mário Petrochi, para quem o que nos falta é planejamento. Ele lembra que a Grande Vitória beneficia-se do turismo de negócios, que acompanha o sucesso da economia; e que as montanhas capixabas, embora belas, ainda não têm atrativos e estrutura suficientes para pessoas de fora do Estado - afinal, terras cariocas, paulistas e mineiras também têm suas montanhas, bem mais famosas.

Resta-nos o litoral. E é aí que reside mais um complicador, na visão do especialista. "O litoral Sul é um destino em decadência. Guarapari perdeu prestígio, tudo por falta de planejamento e da ação desastrosa da especulação imobiliária, que resultou numa ocupação do solo irregular", garante ele, que após ter atuado profissionalmente em Belo Horizonte, constatou: "Lá, para a classe média, Guarapari virou sinônimo de palavrão".

Não dá para negar que, ao longo dos últimos anos, caiu o nível socioeconômico dos visitantes da nossa "cidade saúde". Continuamos recebendo muitos mineiros, mas que tornaram-se "diaristas" - uma referência à redução do tempo de permanência dos turistas por aqui.

foto: A Gazeta
Obras em Praias - Castanheiras


Novo destino
Para Petrochi, a fronteira de expansão do turismo capixaba é o Litoral Norte, que ainda não deslanchou, e para o qual ele defende a construção de um melhor acesso rodoviário. "É a joia que deveria ser potencializada com um projeto que não repetisse os erros do Litoral Sul", argumenta.

E Petrochi vai além em sua críticas. para ele, empresários do setor "ficam de braços cruzados esperando o turista aparecer", por falta de ações de marketing. "O Estado, quando faz propaganda, o faz de forma institucional, e não para vender produto. E o empresário prefere o individualismo, embora se saiba que no turismo um depende do outro. Por que não montar pacote turístico para vender nas cidades do próprio Espírito Santo e de outros Estados próximos?", pergunta.

Por meio de sua assessoria, o presidente do Sindicato de Bares e Restaurantes do Estado, Wilson Vettorazzo Calil admite: "A indústria do turismo ainda não conseguiu sensibilizar o Poder Público de que ela é uma grande geradora de desenvolvimento econômico e social para o Estado". Mas ele acredita que com a criação, neste ano, da Câmara Empresarial do Turismo, na Federação do Comércio, ventos possam soprar a favor.

"O governo passa a ter um interlocutor que fala por todo o setor empresarial e que deverá levar propostas consistentes e apresentar, de forma organizada, projetos que possam efetivamente alavancar o nosso turismo, transformando as nossas belas paisagens, nossas riquezas culturais e a nossa rica gastronomia em grandes oportunidades de desenvolvimento econômico e social para o Estado", afirma Calil.

Mesma tecla

Maely Coelho admite que, nos dois últimos governos, o setor evoluiu, mas também insiste na mesma tecla, de que faltam infra-estrutura e também divulgação do Espírito Santo lá fora, aliado a outro problema, relativo à nossa cultura de receber visitantes.

"Faltam opções de entretenimento e lazer. Já reparou que no domingo, muitos dos nossos restaurantes fecham cedo?", pergunta, reforçando: "Temos que desenvolver a cultura de receber bem. Para se vender bem um destino turístico, é preciso que as pessoas que moram gostem dele. Temos que promover o desenvolvimento do turismo de dentro para fora", argumenta Coelho.

Aprendizado
Desde 1977 atuando no setor turístico no Espírito Santo, o presidente regional da Associação Brasileira da Indústrias Hoteleira (ABIH), Dionísio Corteletti, defende uma campanha agressiva para estimular visitas ao Estado na baixa estação - só na alta, principalmente em janeiro, os hotéis do litoral têm taxas elevadas de ocupação, chegando a 95%. No resto do ano, tirando alguns finais de semana, a situação para muitos é crítica.

"Temos força no turismo de negócios e eventos, mas no de lazer ainda aprendemos com outros Estados", diz Corteletti, acrescentando: "A imagem do Espírito Santo é o Convento da Penha, mas alguém vê essa peça divulgada em âmbito nacional? Essa responsabilidade pela divulgação do Estado cabe ao poder público - governos estadual e municipal. Se há projetos governamentais, a iniciativa privada participa com ações. Os dois têm que se unir", insiste ele.

Todos - críticos ou não, admitem que há muito a ser feito. O secretário estadual de Turismo insiste que há um processo em curso, destacando o que considera sinal de mudança positiva. Segundo ele, a operadora CVC dobrou o número de pacotes vendidos para o Espírito Santo no último feriadão de novembro, e a Intercontinental já fechou pacotes para o Réveillon. Que venham, então, os turistas!

Fonte: http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2011/11/noticias/a_gazeta/dia_a_dia/1033828-beleza-natural-nao-basta.html

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